Guia · Geoprocessamento
Como abrir shapefile, KML e GeoPackage no QGIS e no Google Earth
Para abrir um shapefile no QGIS, arraste o arquivo .shp (ou o .zip que contém o shapefile) para dentro da janela do programa, ou use Camada > Adicionar camada > Adicionar camada vetorial. No Google Earth Pro, vá em Arquivo > Abrir e escolha o tipo Shapefile ESRI (*.shp). No Google Earth na web, o shapefile precisa estar compactado em .zip e entra por Novo > Importar arquivo. KML, KMZ e GeoPackage seguem o mesmo caminho no QGIS; o Google Earth lê KML e KMZ nativamente, mas não lê GeoPackage.
Se o arquivo não abre, aparece no lugar errado ou mostra acentos quebrados, a causa costuma ser uma de três: falta de arquivos do conjunto, sistema de coordenadas ausente ou errado, ou codificação de caracteres. As seções abaixo mostram o passo a passo e como resolver cada erro.
O que vem dentro de um shapefile
O shapefile não é um arquivo só. É um conjunto de arquivos com o mesmo nome-base e extensões diferentes, que precisam ficar juntos na mesma pasta.
| Extensão | O que guarda | Obrigatório? |
|---|---|---|
.shp |
As geometrias (pontos, linhas ou polígonos) | Sim |
.shx |
O índice que liga cada geometria à sua posição no .shp |
Sim |
.dbf |
A tabela de atributos (formato dBASE) | Sim |
.prj |
O sistema de coordenadas, em texto | Não, mas sem ele o programa não sabe onde o dado está |
.cpg |
A codificação de caracteres do .dbf (por exemplo, UTF-8) |
Não, mas evita acentos quebrados |
.sbn, .sbx, .qix |
Índices espaciais | Não |
.shp.xml, .qmd |
Metadados | Não |
Na prática: se você recebeu fazenda.shp, precisa também de fazenda.shx e fazenda.dbf, e quase sempre do fazenda.prj. Renomear só um deles quebra o conjunto. Por isso, o jeito mais seguro de enviar e receber shapefile é compactar todos os arquivos em um .zip.
O KML e o GeoJSON são arquivos únicos, em texto. O KMZ é um KML compactado (pode levar ícones e imagens junto). O GeoPackage (.gpkg) é um arquivo único baseado em SQLite que pode conter várias camadas. Para entender quando usar cada um, veja KML, shapefile, GeoJSON e GeoPackage: diferenças.
Como abrir no QGIS
O QGIS é gratuito e roda em Windows, macOS e Linux. Para trabalho técnico, instale a versão LTR (Long Term Release), que é a mais estável.
Shapefile
- Abra o QGIS e crie um projeto novo.
- Arraste o arquivo
.shpdo gerenciador de arquivos para o mapa. O QGIS também abre o.zipdireto: arraste o.zipe, se houver mais de uma camada dentro, escolha quais carregar. - Se preferir pelo menu: Camada > Adicionar camada > Adicionar camada vetorial (atalho
Ctrl+Shift+V). Em Tipo de fonte, deixe Arquivo, clique nos três pontos, selecione o.shpe clique em Adicionar. - Outra opção é o painel Navegador, à esquerda: navegue até a pasta, expanda o
.zipse for o caso, e dê dois cliques na camada.
Depois de carregar, confira três coisas:
- Sistema de coordenadas: o código aparece no canto inferior direito da janela (por exemplo,
EPSG:4674, que é SIRGAS 2000 em graus). Para ver o da camada, clique com o botão direito nela e vá em Propriedades > Informação. - Atributos: botão direito na camada > Abrir tabela de atributos (
F6). - Posição: ligue um mapa de fundo (no painel Navegador, em XYZ Tiles, o OpenStreetMap já vem configurado) e veja se o polígono cai onde deveria.
KML e KMZ
O caminho é o mesmo: arraste o arquivo ou use Adicionar camada vetorial. Um KML organizado em pastas costuma virar várias subcamadas, e o QGIS pergunta quais você quer adicionar. Os atributos que no Google Earth aparecem no balão de descrição podem vir como um campo de texto único (description) em vez de colunas separadas, dependendo de como o KML foi gravado.
GeoPackage
Arraste o .gpkg para o mapa ou abra pelo Navegador. Como um GeoPackage pode guardar várias camadas, o QGIS mostra uma lista para você marcar as que quer carregar. O GeoPackage é o formato padrão do QGIS para salvar camadas novas, e não tem as limitações de nome de campo e de tamanho do shapefile.
Como abrir no Google Earth Pro
O Google Earth Pro é a versão desktop, gratuita, para Windows, macOS e Linux.
- Vá em Arquivo > Abrir.
- No seletor de tipo de arquivo, escolha Shapefile ESRI (*.shp), ou Todos os formatos de importação de dados.
- Selecione o
.shp. Os arquivos.shx,.dbfe.prjprecisam estar na mesma pasta. - As feições aparecem no mapa e ficam na pasta Lugares temporários, no painel à esquerda.
- Para guardar, arraste a camada para Meus lugares ou clique com o botão direito e use Salvar lugar como para gerar um KMZ.
Segundo a ajuda do Google, o .prj é necessário quando o shapefile não está em WGS 84. Sem ele, o Google Earth não tem como posicionar corretamente dados em UTM ou em outro datum.
Para mudar cor e transparência dos polígonos, clique com o botão direito na camada > Propriedades > aba Estilo, cor. Se os polígonos aparecem sem preenchimento ou só como contorno fino, é aqui que se ajusta.
KML e KMZ abrem com dois cliques no arquivo ou também por Arquivo > Abrir.
Faça essa checagem na sua área
Desenhe ou importe o polígono (KML, shapefile, GeoJSON, GeoPackage) e gere o relatório: cada camada mostra se sobrepõe a área, se está a até 10 km ou se não há nada por perto.
Como abrir no Google Earth na web
A versão web (earth.google.com) exige login com conta Google para importar arquivos. Há dois modos de importação:
- Camada de dados: aceita KML, KMZ, GeoJSON e shapefile compactado em
.zip(CSV e Planilhas Google aparecem como experimentais). É indicada para conjuntos grandes, mas não permite editar as feições. - Feições do projeto: aceita KML e KMZ, permite editar, e tem limite de 10.000 feições ou 250.000 vértices. Arquivos maiores são convertidos automaticamente em camada de dados.
Passo a passo:
- Na tela inicial, clique em Novo > Importar arquivo (dentro de um projeto, Arquivo > Importar).
- Escolha o arquivo no computador ou no Google Drive.
- Selecione Importar como camada de dados ou Importar como feições do projeto.
Há também o editor de KML local, que abre um KML do computador sem precisar de login, mas o arquivo fica visível só naquele dispositivo.
O GeoPackage não é aceito pelo Google Earth. Para levar um .gpkg até lá, exporte a camada para KML no QGIS (botão direito > Exportar > Salvar feições como, formato Keyhole Markup Language [KML]).
Erros comuns e como resolver
| Sintoma | Causa provável | Como resolver |
|---|---|---|
| "Camada inválida" ou o arquivo nem aparece para seleção | Falta .shx ou .dbf, ou os arquivos têm nomes-base diferentes |
Peça o conjunto completo; confira se todos têm exatamente o mesmo nome antes da extensão |
Abriu o .zip no Google Earth Pro e nada aconteceu |
O Earth Pro lê o .shp extraído, não o .zip |
Extraia o .zip numa pasta e abra o .shp |
| O polígono aparece perto da costa da África, no "ponto 0,0" | Coordenadas em metros (UTM) lidas como se fossem graus | Defina o SRC correto da camada (por exemplo, SIRGAS 2000 / UTM 22S) |
| O polígono aparece deslocado algumas dezenas de metros | Dado em SAD 69 ou Córrego Alegre tratado como SIRGAS 2000 | Defina o datum original e reprojete; veja o guia de SIRGAS 2000 e conversão de datum |
| O QGIS avisa que a camada não tem SRC | Falta o .prj |
Descubra o sistema com quem gerou o arquivo e use Definir SRC da camada |
Acentos viram ã, ç ou ? |
Codificação do .dbf diferente da usada na leitura |
Troque a codificação nas propriedades da camada e crie um .cpg |
Nomes de colunas cortados (AREA_HECTA) |
Limite de 10 caracteres do shapefile | Use GeoPackage para guardar nomes longos |
| O Google Earth fica lento ou trava | KML com dezenas de milhares de vértices | Simplifique a geometria no QGIS ou importe como camada de dados na versão web |
Sistema de coordenadas: definir não é o mesmo que reprojetar
Este é o erro que mais gera retrabalho. No QGIS existem duas operações diferentes:
- Definir SRC da camada (botão direito na camada > Camada SRC > Definir SRC da camada): diz ao programa em que sistema as coordenadas já estão. Não altera nenhum número. Use quando o
.prjestá ausente ou errado. - Reprojetar (botão direito > Exportar > Salvar feições como, escolhendo outro SRC): recalcula as coordenadas para um sistema novo e grava um arquivo novo. Use quando o dado está certo, mas você precisa dele em outro sistema.
Se você reprojeta um arquivo cujo .prj estava errado, o erro é carregado para o arquivo novo. Primeiro defina o sistema correto, depois reprojete se precisar.
Coordenadas em UTM só fazem sentido com zona e hemisfério. Se o arquivo veio de um levantamento de campo e você não sabe a zona, o guia de coordenadas UTM e zonas no Brasil mostra como descobrir.
Acentos e codificação
O .dbf não diz por si só em que codificação os textos foram gravados. Programas antigos e muitos sistemas do governo gravam em Windows-1252 (também chamado de Latin-1 ou ISO-8859-1 em algumas telas); o QGIS e as bibliotecas atuais preferem UTF-8.
No QGIS:
- Botão direito na camada > Propriedades > aba Fonte.
- Em Codificação dos dados, teste
UTF-8ewindows-1252até os acentos aparecerem certos. - Para não repetir isso, salve uma cópia com Exportar > Salvar feições como, escolhendo a codificação
UTF-8. O QGIS grava o.cpgjunto.
Se você só precisa resolver um arquivo que vai circular por e-mail, criar manualmente um arquivo de texto fazenda.cpg contendo apenas UTF-8 (ou 1252) já orienta a maioria dos programas.
Arquivos KML com dados escondidos na descrição
Muitos KML gerados por sistemas públicos guardam os atributos em HTML dentro do campo de descrição. No Google Earth isso aparece bonito no balão; no QGIS vira uma coluna de texto longa. Se você precisa dos atributos em colunas, peça o dado em shapefile, GeoJSON ou GeoPackage na origem, ou faça a conversão com uma ferramenta que leia os dados estendidos do KML.
Quando converter antes de abrir
Converter vale a pena em três situações:
- Você recebeu KML e vai trabalhar no QGIS ou entregar para um órgão que pede shapefile. Use a ferramenta gratuita KML para shapefile.
- Você tem um shapefile e o cliente só usa Google Earth. Use shapefile para KML e mande um único arquivo.
- Você recebeu só uma lista de coordenadas de vértices. O conversor de coordenadas transforma pontos entre graus e UTM e entre SAD 69, Córrego Alegre e SIRGAS 2000. Para conferir o tamanho do polígono, use calcular área.
Todas ficam em ferramentas e funcionam sem instalar nada.
Onde conseguir camadas prontas para abrir
Boa parte do trabalho de análise de um imóvel rural é cruzar o limite da área com bases públicas: terras indígenas, unidades de conservação, embargos do IBAMA, CAR, SIGEF, PRODES. Cada órgão publica em um lugar, com formatos e codificações diferentes, e é aí que aparecem os erros descritos acima.
No ilovegis, essas bases já estão padronizadas e podem ser vistas no mapa. No plano Profissional, é possível baixar as camadas em shapefile, GeoPackage, GeoJSON ou KML para abrir no QGIS ou no Google Earth. E, se o objetivo é saber se o imóvel cruza alguma dessas áreas, você pode importar o limite da fazenda (KML, KMZ, shapefile em .zip, GeoJSON ou GeoPackage) e gerar um relatório que indica, para cada camada, se há sobreposição, se há algo a até 10 km ou se não há nada nesse raio.
Para começar pelo cadastro ambiental do imóvel, veja como baixar o shapefile do CAR.