Guia · Desmatamento
PRODES e DETER: o que são, diferenças e como usar na análise de um imóvel
PRODES e DETER são os dois sistemas do INPE que mapeiam a perda de vegetação nativa por satélite, mas servem a propósitos diferentes. O PRODES faz o inventário anual do desmatamento, com área mínima e datas bem definidas, e é a base usada em TACs, na Moratória da Soja, no crédito rural e em due diligence. O DETER emite alertas quase diários para orientar a fiscalização e não deve ser lido como taxa de desmatamento. Para verificar se um imóvel teve desmatamento depois de uma data de corte, a referência é o PRODES (camada de incremento anual por bioma). O DETER entra como sinal de que algo recente pode estar acontecendo.
Este guia explica como cada sistema funciona, qual arquivo baixar e como fazer o cruzamento com o limite de um imóvel rural sem cair nos erros mais comuns.
O que é o PRODES
O PRODES (Monitoramento Anual da Supressão da Vegetação Nativa) começou em 1988 na Amazônia Legal e foi o primeiro programa de monitoramento sistemático do INPE. Ele mapeia, ano a ano, as áreas em que a vegetação nativa foi removida, comparando a imagem do ano analisado com as dos anos anteriores. Cada polígono novo é um incremento; o que já foi mapeado entra numa máscara de exclusão, de modo que a mesma área não é contada duas vezes.
A cobertura foi ampliada aos poucos:
- Amazônia (vegetação florestal): desde 1988. Há um mapa de desmatamento acumulado até 2007 e incrementos anuais a partir de 2008.
- Cerrado: desde 2016 como sistema oficial, com mapa base de 2000, incrementos bienais até 2012 e anuais desde 2013.
- Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal: dados sistemáticos desde 2023, com mapa base de 2000 e incrementos anuais desde 2017.
- Amazônia, vegetação não florestal (PRODES NF): monitorada desde 2023.
Ano PRODES e data de referência
O PRODES trabalha com um ano próprio: de 1º de agosto de um ano a 31 de julho do ano seguinte. O "PRODES 2024", por exemplo, cobre agosto de 2023 a julho de 2024. A data efetiva de cada polígono, porém, é a da imagem em que ele foi detectado, registrada no atributo image_date da tabela. Para conformidade ambiental, o INPE orienta usar essa data (lembrando que, para o PRODES, conta o ano).
Na Amazônia, a taxa sai em duas etapas: uma estimativa no fim do ano e a taxa consolidada no primeiro semestre do ano seguinte.
Área mínima
| Recorte | Área mínima mapeada |
|---|---|
| PRODES Amazônia (floresta) | 6,25 ha para taxa e regularização ambiental |
| PRODES Amazônia, polígonos menores | 1 a 6,25 ha, em camada separada (desde 2021) |
| PRODES NF, Cerrado e demais biomas | 1 ha |
Os 6,25 ha vêm da época em que o mapeamento era feito em imagens impressas na escala 1:250.000: 1 mm² no papel correspondia a 6,25 ha no terreno. O limiar foi mantido para não quebrar a série histórica.
Sensores
Até 2023, o PRODES usou principalmente imagens Landsat (30 m), com Sentinel-2 para cobrir cenas com nuvem. A partir de 2024, Amazônia e Cerrado passaram a ser mapeados integralmente com Sentinel-2, e na Amazônia as áreas encobertas são observadas com radar Sentinel-1. Nos outros quatro biomas, o Sentinel-2 é a imagem principal desde 2023.
O que é o DETER
O DETER (Detecção do Desmatamento em Tempo Real) produz avisos diários de supressão, desmatamento e degradação da vegetação nativa para subsidiar a fiscalização, principalmente do IBAMA. Desde 2015 usa o sensor WFI do satélite CBERS-4, com 64 m de resolução, e passou a mapear alterações com área mínima próxima de 3 ha; nos dados públicos, a página do programa informa polígonos a partir de 6,25 ha (veja o guia do DETER). Hoje os avisos são produzidos com imagens WFI dos satélites CBERS-04, CBERS-04A e Amazônia-1. A cobertura atual divulgada pelo INPE é de Amazônia e Cerrado.
O INPE é explícito: os avisos do DETER não constituem taxa mensal de desmatamento. Nuvens, resolução e o objetivo operacional fazem com que os números indiquem tendência, não área exata.
Classes do DETER
Diferente do PRODES, o DETER registra também degradação. Na camada da Amazônia aparecem classes como:
| Classe (código no arquivo) | O que indica |
|---|---|
DESMATAMENTO_CR |
Corte raso, com remoção total da vegetação |
DESMATAMENTO_VEG |
Desmatamento com presença de outra vegetação |
MINERACAO |
Vegetação convertida em área de extração mineral |
DEGRADACAO |
Perda parcial e progressiva da cobertura florestal |
CICATRIZ_DE_QUEIMADA |
Área atingida por fogo |
CS_DESORDENADO / CS_GEOMETRICO |
Corte seletivo (exploração madeireira) |
Para um aprofundamento só sobre os alertas, veja o guia DETER: alertas de desmatamento.
Comparação direta
| PRODES | DETER | |
|---|---|---|
| Objetivo | Inventário e taxa anual de desmatamento | Alertas rápidos para fiscalização |
| Frequência | Anual (ano de agosto a julho) | Avisos diários, consolidados por mês |
| Biomas | Todos os biomas brasileiros | Amazônia e Cerrado |
| Imagens | Sentinel-2 (10 a 20 m), antes Landsat (30 m) | WFI (64 m) do CBERS-04, CBERS-04A e Amazônia-1 |
| Área mínima | 6,25 ha (Amazônia floresta) ou 1 ha | Cerca de 3 ha |
| Degradação | Não é o foco (há classe de degradação progressiva na Amazônia desde 2022) | Sim: degradação, queimada, corte seletivo |
| Uso em compliance | Referência para TACs, Moratória, crédito, EUDR (via Marco UE) | Sinal de risco recente, a confirmar |
Faça essa checagem na sua área
Desenhe ou importe o polígono (KML, shapefile, GeoJSON, GeoPackage) e gere o relatório: cada camada mostra se sobrepõe a área, se está a até 10 km ou se não há nada por perto.
Quais arquivos baixar no TerraBrasilis
Tudo está na área de downloads do TerraBrasilis, organizada por bioma. O documento técnico que o INPE publicou em 2026, elaborado a partir de entendimento com o Ministério Público Federal, define o que usar e o que evitar:
Use para conformidade ambiental
- Incremento anual de desmatamento (Amazônia) ou incremento anual na supressão da vegetação nativa (demais biomas), camada
yearly_deforestationdo bioma. Considere só os polígonos de desmatamento, identificados no atributoclass_namepela letradseguida do ano (por exemplo,d2022). - Trabalhe por bioma, não com a camada da Amazônia Legal.
Não use para conformidade ambiental
- Resíduo (
class_nameiniciado porr): áreas desmatadas em anos anteriores e detectadas depois. A data de ocorrência não é precisa. - Polígonos entre 1 e 6,25 ha da Amazônia: não entram na taxa nem no incremento anual.
- Máscara de desmatamento acumulado (até 2007 na Amazônia, até 2000 nos demais biomas): só serve para dizer que havia desmatamento antes dessas datas.
- Marco UE (supressão até 31/12/2020, área mínima de 0,5 ha): feito exclusivamente para o regulamento europeu. Veja o guia sobre a EUDR.
Como usar o PRODES na análise de um imóvel
1. Defina a data de corte
O PRODES diz quando houve supressão; a regra que você está verificando diz a partir de quando isso importa. As referências mais comuns:
| Referência | Data de corte |
|---|---|
| Código Florestal (área rural consolidada) | 22/07/2008 |
| TAC da Carne e Protocolo Boi na Linha (Amazônia) | 22/07/2008, polígonos ≥ 6,25 ha |
| Moratória da Soja | julho de 2008 |
| Regulamento europeu (EUDR) | 31/12/2020 |
Os detalhes de cada acordo estão nos guias sobre critérios de compra de gado, Moratória da Soja e crédito rural. O documento do INPE também cita, para o crédito rural, tolerâncias de sobreposição para supressões posteriores a 31/07/2019 (até 6,25 ha na Amazônia, 5 ha no Cerrado e no Pantanal e 2 ha na Mata Atlântica, na Caatinga e no Pampa), desde que o imóvel não tenha embargo vigente.
2. Prepare o limite do imóvel
Use o polígono do CAR (base oficial) ou, quando houver, a parcela certificada no SIGEF. Confira o sistema de referência de cada arquivo (o .prj do shapefile informa o datum) e deixe os dois iguais antes do cruzamento. Se o arquivo veio do cliente em KML, converta com a ferramenta KML para shapefile. Para baixar o polígono do CAR, veja como baixar o shapefile do CAR; se precisar conferir datum, o guia SIRGAS 2000 ajuda.
3. Faça a interseção e filtre
- Recorte a camada de incremento do bioma pelo limite do imóvel.
- Mantenha só as classes
dcom ano posterior à data de corte. Confirme peloimage_date. - Some a área sobreposta por polígono. Na regra do TAC da Carne, por exemplo, manchas contíguas menores que 6,25 ha são descartadas antes do cruzamento.
4. Aplique a tolerância cartográfica
O PRODES é gerado na escala 1:75.000, e o CAR é autodeclarado. Por isso o INPE usa um buffer interno de 60 m (dois pixels Landsat) a partir da borda do imóvel: uma sobreposição contida inteiramente nessa faixa é considerada cartograficamente aceitável e, segundo o INPE, não deve ser usada como critério de fiscalização, embargo ou negativa de crédito. Polígonos que entram além dessa faixa precisam de análise.
5. Confirme com imagens
Antes de concluir, abra imagens de antes e depois da data do polígono. Falsos positivos acontecem (sombra, alagamento, queimada confundida com corte raso) e o polígono pode refletir uma supressão autorizada. Lembre que o PRODES não avalia legalidade: supressões com autorização continuam no mapa, e áreas regeneradas não saem dele. A autorização, quando existe, é um documento a anexar à análise.
6. Olhe o DETER para o período recente
O PRODES chega com atraso em relação ao campo: na Amazônia, a estimativa do ano sai no fim do ano e o dado consolidado, no ano seguinte. Alertas DETER recentes no imóvel, ou embargos do IBAMA na mesma área, indicam que o próximo PRODES pode trazer um polígono novo. Trate como sinal de atenção, não como prova.
Exemplo prático
Um comprador de soja recebe o CAR de uma fazenda no oeste da Bahia, no Cerrado. O cruzamento com o PRODES Cerrado mostra dois polígonos: um d2019 de 14 ha no centro da área e um d2023 de 2 ha encostado no limite norte, dentro da faixa de 60 m. Para a EUDR, o de 2019 está antes de 31/12/2020, mas é preciso conferir o Marco UE, que tem área mínima menor. Para um protocolo com corte em 2008, o de 2019 exige documentação (autorização de supressão, por exemplo). O de 2023, inteiro dentro da faixa de tolerância, tende a ser um conflito de borda, mas vale olhar a imagem.
Como pedir revisão de um polígono
Se o polígono está errado, o caminho é o Canal de Atendimento BiomasBR do INPE. Exige-se cadastro, o número do recibo do CAR federal e o UUID de cada polígono (última coluna da tabela de atributos da camada yearly_deforestation do bioma, com 36 caracteres). Laudo, fotos de campo e imagens aumentam a chance de análise favorável. O resultado vem em nota técnica, com prazo máximo de 60 dias corridos, e eventuais correções entram no dado oficial na publicação seguinte. Pedidos com UUID de outras camadas (resíduo, Amazônia Legal) não são avaliados.
Fazendo o cruzamento no ilovegis
No ilovegis, o tema Desmatamento e Monitoramento reúne as camadas de PRODES por bioma, como PRODES Amazônia e PRODES Cerrado, a máscara acumulada da Amazônia e os alertas DETER Amazônia e DETER Cerrado. Você desenha ou importa o limite do imóvel (.kml, .kmz, shapefile em .zip, .geojson ou .gpkg) e o relatório mostra, para cada tema, se há sobreposição, se há algo a até 10 km ou se não há nada em 10 km, com a área envolvida. Dá para incluir no mesmo relatório embargos do IBAMA, terras indígenas e unidades de conservação.
As camadas de PRODES e DETER fazem parte do plano Profissional (até 5.000 km² e 50 temas por relatório). O relatório é o ponto de partida: a checagem de image_date, a tolerância de borda e a confirmação em imagem continuam sendo trabalho do analista. Para um roteiro completo, veja o checklist de due diligence socioambiental.